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120 milhões: o presente de grego

Vamos contar uma estória de uma pessoa. Essa pessoa, muito conhecida na praça, sabidamente um dos pilares da sociedade em que vive, acaba por contrair uma enorme dívida. Uma dívida grande, e, pra ela, impagável, pois recebia muito menos do que tinha que, mês a mês, entregar aos seus credores.
Por uma série de acontecimentos fortuitos, em algum momento surge um amigo e diz o seguinte: “Sei da sua situação, me preocupa muito, e vou te ajudar. Até você se recuperar, vou emprestar dinheiro pra você pagar suas contas básicas, compro algumas coisinhas para sua casa, e você me paga com 10% do valor de seus rendimentos por mês”.
O endividado, feliz, aceita a ajuda (mesmo porque não dava pra ser diferente), organiza suas finanças, corta custos, melhora seus rendimentos, e começa a pagar suas contas. Já de novo caminhando orgulhoso pelas ruas do bairro, sua maior ambição, naquele momento, é juntar um dinheiro para poder comprar um fogão e uma geladeira novos, já que os seus estão bem velhinhos. Ele, contudo, tem paciência, e espera – não quer se endividar de novo, não quer correr o risco de, novamente, ver ameaçada sua dignidade. Tudo vai bem, até que aparece um outro amigo, com uma outra proposta: “Gosto muito de você, sei que você passou por maus bocados e agora está voltando a ficar bem. Fico feliz, e é o seguinte: vi que sua geladeira e fogão estão velhos, e isso não pode ficar deste jeito. Faz assim: pega esse dinheiro que está sobrando em sua conta, paga essas suas contas antigas que eu te dou esse fogão e essa geladeira”. Encantado com tal generosidade, nosso personagem liquida suas contas antigas e ainda recebe seus novos eletrodomésticos. Tudo caminha bem, como nunca deveria ter deixado de caminhar.
Em outro dia, contudo, o novo amigo aparece de novo em sua casa, e conta uma notícia triste: “Sabe o fogão e a geladeira que te dei? Na verdade eu meio que não podia ter dado pra você, então vou ter que dizer que te emprestei o dinheiro pra que você pudesse comprá-los. Fique tranquilo: você me paga se revender pra alguém, e fica com o lucro. Só que, se daqui uns anos você ainda estiver com eles, me paga a dívida toda. Ah, e tem uns juros no meio do caminho, mas isso é do jogo, e tal. Tudo bem?”. Nosso herói, meio sem jeito, aceita – afinal, a geladeira e o fogão estão lá, são ótimos, e estão sendo usados… Ele sabe, contudo, que nada indica que o dinheiro gasto nos eletrodomésticos vai ser reavido, e que daqui a um tempo vai ter que se virar com uma nova dívida. Isso, definitivamente, não estava nos planos dele, e, aliás, lhe parece muito, muito preocupante…
Muito bem. Esta pequena história serve pra contar o que aconteceu com o Palmeiras nos últimos tempos. O clube, recentemente, gastou enormes valores na amortização da sua dívida com o ex-Presidente Paulo Nobre – dívida assumida em um momento de extrema necessidade, e que continha um mecanismo interessante de pagamento, variável de acordo com a receita do clube. Escolhemos, deliberadamente, e sem qualquer estudo técnico que desse suporte à iniciativa, pagar essa dívida rapidamente, ao invés de fazer um fundo de reserva para garantir o clube em caso de problemas (hoje poderíamos ter 100 milhões investidos, pelo menos). Os jogadores comprados pela patrocinadora e entregues ao clube como patrocínio se tornaram, repentinamente, um empréstimo de 120 milhões de reais – um empréstimo não desejado, realizado em um momento em que o clube não precisava e com prazo certo para pagamento, ao contrário da contraída junto a Paulo Nobre. Em síntese, por motivos que até o momento não foram devidamente explicados ao COF ou ao CD, o Palmeiras assumiu uma obrigação miliardária para auxiliar na resolução de um problema de sua parceira comercial. Recebeu, enfim, e como diriam os velhos contos, um verdadeiro presente de grego.
Há que se ponderar que, de fato, é interessante para o Palmeiras manter um bom relacionamento com seu parceiro comercial. Ninguém discute isso. Por outro lado, em que pese tal condição, também é verdadeira a afirmativa de que, se fôssemos comprar jogadores por nossa conta, não teríamos gasto estes 120 milhões de reais neste prazo: a estratégia certamente seria outra. Muito mais importante, ainda que houvesse um dirigente disposto a fazer tais loucuras com um time recém-saído de um estado de pré-falência, certamente não emprestaríamos os 120 milhões de reais para essa finalidade. Essa manobra jamais seria cogitada e, ainda que assim fosse, possivelmente não seria autorizada pelo COF ou pelo CD, que, pelo volume de recursos, deveriam se manifestar sobre o tema.
O Palmeiras assumiu uma dívida enorme, capaz de impactar fortemente as finanças do clube em médio prazo. Ainda que considerando a falta de informações oficiais sobre o assunto, parece evidente que, na ponderação de interesses sobre este negócio, o do clube pesou menos. Isso só aconteceu – e perdão pela repetição do tema – porque a patrocinadora hoje ocupa um espaço político no Palmeiras que um parceiro comercial simplesmente não deveria ter. A evidente liberdade com que a parceira assume papéis no Palmeiras, inclusive se imiscuindo na própria representação do clube frente ao público interno e externo, parecem indicar uma atuação que vai muito além do desejável por parte de quem tem interesses que são fundamentalmente contrapostos aos interesses do clube. De novo, e para que fique claro: a CREFISA e a Sociedade Esportiva Palmeiras tem uma relação comercial, em que há oferta de valores financeiros em troca de exposição da marca, e hoje observamos a transformação desta relação para algum tipo de simbiose, em que a figura do clube se confunde com a da patrocinadora, com evidentes repercussões no tocante aos processos de decisão da nossa sociedade esportiva. Não parece haver outra explicação para o Palmeiras assumir essa enorme dívida.
Sobre os valores em si, há mais um ponto a considerar: o volume dos empréstimos supera em muito o limite estatutário que demanda autorização dos órgãos de controle do clube. É possível argumentar que o fracionamento dos empréstimos (representado pelo fracionamento das próprias contratações) descaracterizaria o montante total do comprometimento orçamentário e financeiro do clube, mas cabe lembrar que este mesmo argumento não foi aceito pelo CD quando do julgamento das contas do Belluzzo, e foi causa de suspensão do ex-presidente por um ano. É bem possível, assim, que a manobra, além de aparentemente ferir os interesses do Palmeiras (considerando, repita-se, que o clube jamais emprestaria esse dinheiro todo em condições normais), seja formalmente passível de questionamento.
Não é o momento de caça às bruxas, mas, sem dúvida, é preciso refletir. Temos, como talvez nunca antes em nossa história, a possibilidade real de dar um salto administrativo e financeiro positivo e profissionalizante, garantindo assim o papel de protagonista do Palmeiras no futebol brasileiro e sulamericano em médio e longo prazos. Não podemos perder esta oportunidade. Não podemos retroceder.

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  • Thiago Nay Peres

    Ninguém da nada de graça a ninguém… Cobra Batman e são o bote na hora certa. Nunca vi banqueiro emprestar dinheiro sem juros, muito menos dar de mão beijada…
    Triste por isso. Volta Paulo Nobre