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A negociação e legado – A dívida do Palmeiras com Paulo Nobre

No último dia primeiro de setembro o Conselho Deliberativo da Sociedade Esportiva Palmeiras completou 100 anos.

Este tão importante colegiado, palco de tantas decisões importantes para aquele que viria a se tornar o Campeão do Século XX, contudo, vivia um momento conturbado.

Com ameaças de invasão externa, ânimos exaltados em seu seio, a pauta de discussão da sessão extraordinária agendada para o dia de seu aniversário não causava orgulho a nenhum palmeirense: o tema era a deliberação sobre o plano de pagamento de uma dívida de mais de 100 milhões de reais contraída pelo clube junto ao seu Presidente, Paulo Nobre.

A votação foi conturbada, com algumas manifestações mais acaloradas (muito por conta da terrível situação do futebol) mas, ao final, o plano foi aprovado. Este pequeno texto serve para tentar explicar ao palmeirense (e também ao não-palmeirense, claro) no que consiste o mecanismo de pagamento criado, avaliado e validado pelo COF e finalmente aprovado pelo CD, e tem por base a apresentação feita em reuniões setoriais e no plenário do Conselho Deliberativo.

Pois bem. Pra começar, vale lembrar que ao se eleger o Presidente Paulo Nobre gozava de ampla simpatia da torcida. Seu perfil jovem e inovador, e seu discurso de profissionalismo e de resgate dos tempos de glória do Palmeiras empolgavam. A ruptura com o antigo modelo de gestão do clube parecia inevitável.

Um dos principais problemas do clube, contudo, era sua situação financeira e orçamentária – financeiro, pra explicar, diz respeito a dinheiro em caixa; orçamentário, por sua vez, é a previsão de entradas e saídas de grana, que garante a administração racional da entidade. É possível estar azul no orçamentário (como estivemos alguns meses nestes dois anos) e estar sem um gato pra puxar pro rabo em termos de financeiro, de grana pra gastar.

O cenário no início de 2013 mostrava um altíssimo endividamento de curto prazo, e falta de credibilidade e acesso a crédito a preços razoáveis no mercado. Para agravar a situação, houvera um tremendo adiantamento de receitas por parte das gestões anteriores, praticamente deixando o clube sem entrada de recursos para os exercícios de 2013 e 2014. Tal era o descontrole encontrado que o balanço do ano de 2012 e o orçamento do ano de 2013, não providenciados pela antiga gestão, somente puderam ser apreciados pelo Conselho Deliberativo em outubro de 2013! Bem, esta parte do buraco financeiro em que nos encontramos é razoavelmente conhecida de todos, e não demanda maiores digressões.

Para enfrentar esta situação de penúria financeira, o Palmeiras precisava de… dinheiro. Óbvio, mas as possibilidades de obtenção de recursos por parte do clube eram simplesmente proibitivas do ponto de vista orçamentário – não dava pra pegar dinheiro no mercado e se afundar ainda mais no poço – o Palmeiras tem mostrado que o fundo do poço pode sempre estar um pouquinho mais pra baixo. Somados a tal cenário, o Palmeiras (como, verdade seja dita, várias equipes de ponta do País) não conseguiu um patrocinador máster para sua camisa, e a Arena… ah, a Arena, que não fica pronta nunca, não oferecia aos cofres do clube as receitas vultosas que gerará.

Iniciou o Presidente do Palmeiras, então, um processo de captação de recursos no mercado em seu nome, para repasse integral dos valores ao Palmeiras. A razão para tal medida, que contrariava frontalmente seu discurso de profissionalização: os juros praticados para o clube seriam enormemente maiores que os oferecidos ao investidor Paulo Nobre. Em dois anos (2013 e 2014), mais de 100 milhões de reais. É bom que se diga desde já: as operações de 2013 já foram devidamente avaliadas e aprovadas pelo COF e pelo CD, quando aprovados o balanço do ano correspondente. As de 2014 o serão, caso esteja tudo em ordem, ao serem analisadas as contas de 2014. Sem prejuízo dessa constatação, os documentos comprobatórios dos empréstimos e da entrada de dinheiro no clube foram devidamente conferidos pelo COF, como evidentemente deveriam ser para aprovar a engenharia de pagamento. Outra: a operação aprovada pelo CD no dia 01 de setembro não foi a autorização de realização de empréstimo pelo clube: foi, isso sim, a aprovação de um plano de pagamento de dinheiro utilizado precipuamente para pagamento de despesas correntes do clube – as despesas correntes são aquelas fixas, tais como água, luz, salário etc. Não foi dinheiro pra investir, e sim pra não deixar a roda parar de girar.

Voltando: o plano apresentado e aprovado pelo COF e pelo CD do Palmeiras tinha algumas características muito interessantes para o clube: em um prazo de financiamento previsto entre 10 e 12 anos, a remuneração do capital emprestado (e já utilizado) será a de 100% do CDI, limitada a 12% ao ano ou 1% ao mês. O pagamento da dívida será relacionado ao percentual de entradas de receita nos cofres do clube: quanto mais receita entrar, mais rápido a dívida pode ser paga. O acordo proposto, ainda, não contempla antecipações de receita, não comprometendo as futuras administrações orçamentária e financeiramente.

O valor da operação de pagamento da dívida será cedido para um fundo de investimento, até mesmo pra garantir a governança do pagamento e a lisura dos repasses. A receita entrará no clube por duas portas, em proporções iguais: uma porta, que pode ser chamada de “conta vinculada” (vamos chamar de Conta V), servirá para remunerar o fundo para os pagamentos mensais; a outra porta será a da conta operacional (Conta O), ordinária do clube.

Destes 50% de recursos que entram na Conta V, 20% serão automaticamente retidos pelo fundo – ou seja, somente 10% das receitas mensais do clube são retidas pra o pagamento da dívida com Paulo Nobre. O saldo remanescente será imediatamente remetido para a Conta O – sim, houve muitos boatos dizendo que era tudo vinculado, mas a realidade é esta. O máximo da receita do clube comprometida com o pagamento desta dívida é 10% ao ano. Se arrecadar menos, paga menos; se arrecadar mais, paga mais rápido a dívida. O resto do dinheiro é livre para as futuras administrações do clube gastarem com seus projetos – e, esperamos, auxiliem o Palmeiras a voltar a disputar títulos, sem sofrimentos como o que agora passamos. Pode, inclusive, ser usado pra pagar outras dívidas, mas não é obrigatoriamente destinado a isso.

Somente a título de comparação, a gestão Paulo Nobre havia tentado, em meados de 2013, realizar um outro tipo de aporte de recursos no clube, por intermédio da constituição de um FIDC (Fundo de Investimento de Direitos Creditórios). Haveria um aporte de cerca de 55 milhões de reais, e seriam oferecidos como garantia (o fundo depende de futuros créditos pra ser montado tá nome do negócio, né?) 100% dos contratos com a Rede Globo. O custo financeiro da operação seria de quase 20% (remuneração do fundo + juros). O prazo pra pagar a conta seria, também, muito mais curto, até 2018. O FIDC, que já era uma medida de desespero, teria como característica justamente a antecipação de receitas do principal contrato do clube, firmado com a detentora dos direitos de transmissão de futebol, sem contar que mais de 20 milhões nem entrariam nos cofres do clube, servindo pra pagar dívidas já vencidas. Bem pesado, mas, à época, parecia a salvação da lavoura, especialmente comparando com a alternativa de captação de dinheiro no mercado. Bem, a operação tornou-se inviável quando o dinheiro da Globo foi bloqueado em razão de mais um papagaio deixado pela gestão anterior – a dívida da compra do sempre muito raçudo jogador Wesley. Pra ficar mais claro: o custo financeiro da negociação aprovada no CD é de cerca de 12% ao ano, contra 20% ao ano que pagaríamos ao FIDC… Aliás, é neste tipo de comparação que se pode observar como o negócio do pagamento (não estou falando do que levou ao empréstimo, ou ao empréstimo em si, e sim do pagamento) aprovado no CD foi comparativamente benéfico ao clube: uma empresa com boas garantias consegue obter empréstimos no mercado a pouco mais de 20% ao ano. Clubes de futebol, endividados e com receitas comprometidas, normalmente captam a 25%, mais ou menos (com a corda no pescoço, a mais de 30%). No papel, em 10 anos, comparando o valor da remuneração do plano aprovado pelo CD com os de juros normalmente praticados pelo mercado com clubes como o Palmeiras, a economia será de cerca de 320 milhões de reais. É grana, muita grana – mais ou menos um ano e meio de orçamento do clube.

A gestão Paulo Nobre desde o início enfrentou muitas críticas. O fato é que ninguém se orgulha de ter jogado novamente a segunda divisão, e todos ficam horrorizados com a perspectiva de nova queda. Houve, também, sérios problemas quanto à comunicação da Presidência com sócios e torcedores, e inúmeras situações em que o palmeirense se viu – justificada ou injustificadamente, isso não importa – diminuído frente a seus rivais históricos. A prometida reforma estatutária, da mesma forma, não aconteceu, e a profissionalização da administração do clube, nos moldes em que foi apresentada, é seriamente questionada.

Ao lado destes problemas, contudo, houve grandes acertos. O fim do Palmeiras B, a implantação de programas de gestão financeira e orçamentária, o firme posicionamento no litígio com a empresa WTorre são exemplos de sucessos da administração Paulo Nobre. Da mesma forma, as medidas de contenção financeira e reorganização orçamentária permitirão ao clube caminhar novamente com razoável organização, para quiçá reiniciar sua trajetória de glórias. Infelizmente, tais medidas foram possíveis somente com o empréstimo de numerário do Presidente do Palmeiras ao clube – felizmente, contudo, a engenharia do pagamento destes valores emprestados não comprometerá as finanças palestrinas. O plano de pagamento da dívida do Palmeiras, assim, ombreia-se a estes bons feitos da Diretoria 2013-2014, que constituem, no conjunto da obra, juntamente com os aspectos negativos citados, o legado da gestão Paulo Nobre. O balanço final, se positivo ou negativo, é da história, e só será constatado daqui a alguns anos. Por ora, o Palmeiras ganhou fôlego. E precisávamos, muito, de fôlego.

 

 

 

 

 

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  • Gaetano

    Nunca foi posto em dúvida, pelo menos por minha parte, o amor do Presidente ao clube. Também entendo que boa parte da falta de resultados dessa gestão se deveu a sua situação financeira que inibiu a capacidade da diretoria em administrar o melhor para o futebol. A lamentar somente a presença, ainda, no conselho, de membros que de amor ao clube não tem nada, antes, pelo contrário, são defensores de seus interesses e vaidades pessoais. Esses são os verdadeiros carrascos que fazer caminhar o clube para o enforcamento. Enquanto persistirem essas brigas políticas, o jogo de interesses e maldade de gestão contra opositores, duvido que alguma nova ou velha gestão tenha sucesso. Duvido mesmo que consigamos sair vitoriosos no futebol. Está acima da troca do comando técnico e da atitude violenta ou não de torcedores. Com relação a violência, tudo tende a se agravar e acirrar mais a satisfação desses canceres que frequentam o clube.