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Assembleia Geral do dia 4 de agosto – o posicionamento da Confraria Palestrina

No próximo dia 4 de agosto, os associados do Palmeiras serão chamados às urnas para votar importantes alterações em seu Estatuto Social. É uma festa democrática, manifestação legítima do poder constituinte de nossa querida sociedade. Tudo lindo, né? Bem deveria ser.

A Confraria Palestrina vai votar “Sim” pela grande maioria das propostas, que representam avanços institucionais para o clube. Vamos discutir aqui, contudo, três das propostas de alteração, duas referentes ao tempo de mandato de Presidente do Palmeiras e uma pertinente ao número de conselheiros vitalícios no Conselho Deliberativo. Pra estas, as coisas são um pouco diferentes.

Item 6 do questionário: ALTERAÇÃO DO PRAZO DE DURAÇÃO DO MANDATO DO PRESIDENTE E DOS VICE-PRESIDENTES DA DIRETORIA EXECUTIVA

Item 6.A do questionário: EMENDA – ALTERAÇÃO PARA INCLUSÃO DO ART. 3º NAS DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS

Neste item, o Conselho Deliberativo do Palmeiras aprovou, por apertada maioria, a proposta de alteração estatutária alargando o tempo de mandato do Presidente e vices para 3 anos, permitida uma recondução (atualmente são 2 anos). Por maioria mais ampla, rejeitou a emenda ofertada pela Confraria Palestrina de que esta regra somente passasse a valer a partir da eleição de 2020.

No questionário, os sócios serão indagados se concordam ou não com a proposta APROVADA pelo CD (os 3 anos) e se concordam ou não com a REJEIÇÃO da emenda. Meio torto, né? Concordar em discordar… A proposta deveria, a nosso ver, ser encaminhada de forma direta: se o sócio concorda ou não com a alteração estatutária de os 3 anos só valerem a partir de 2020. Isso NÃO FOI, repita-se, o encaminhamento dado. Para APROVAR a emenda da eleição de 3 anos só valer a partir de 2020, o sócio deverá votar NÃO no item 6A, no sentido de não concordar com a opinião do CD. Tudo certo? Quem quer votar “sim” pelos 3 anos, mas quiser que ele valha só a partir de 2020, deve votar “sim” na questão 6 e “não” na questão 6.A. Dá pra votar “não” nas duas? Claro que dá, e é isso que defendemos. E vamos explicar porque.

A primeira coisa a fazer é afastar é o discurso vazio sobre modernidade x atraso. Não se trata disso. Somente como exemplo, sabemos que o São Paulo Futebol Clube ampliou para três anos o mandato presidencial em 2007 e o Botafogo de Futebol e Regatas em 2010 – sem que se pretenda realizar qualquer crítica às gestões de tais agremiações, se este fosse o índice que marcasse o sucesso provável de qualquer administração, estes dois clubes já teriam obtido resultados muito mais consistentes do que de fato apresentaram. Além disso, é preciso destacar que a modernidade não se refere a tempo de mandatários no poder, e sim à capacidade dos interessados em fiscalizar e controlar tais governos. A modernidade refere-se à transparência e à responsividade, e não diz respeito a uma opção que, fundamentalmente, refere-se à história e ambiência de cada associação. O Palmeiras é o maior campeão da história do futebol brasileiro com um mandato de 2 anos para seu Presidente, e, só pra ficar num exemplo recente, os sucessos na gestão Paulo Nobre demonstram que o sucesso futebolístico acontece também em um mandato de 2 anos. O que importa, na verdade, é realizar um trabalho sério, transparente e voltado aos interesses do clube.

Aos que argumentam que, afinal, os 3 anos de mandato sempre foram defendidos pela maior parte dos que hoje se opõe à mudança estatutária, é preciso falar de outro tema: a capacidade do clube em resistir a mudanças das regras do jogo que beneficiem diretamente as pessoas interessadas, e o que significa aderir a este movimento neste nosso momento histórico.

Todos sabem como a Crefisa é importante para o Palmeiras. É, de longe, o maior patrocínio esportivo do país, e nos tem ajudado a manter um caminho seguro de recuperação de nosso patamar histórico. A relação da empresa patrocinadora com o clube é (ou ao menos deveria ser) estritamente profissional, sendo os interesses entre as partes diversos: o Palmeiras quer o dinheiro da Crefisa, e a Crefisa quer a exposição que o Palmeiras proporciona – aliás, o impressionante caso de sucesso Parmalat, que todos achavam que nunca iria se repetir, aparentemente aconteceu de novo com nossa atual patrocinadora, que em três anos junto ao Palmeiras viu seu faturamento crescer mais de 90%. Nada mal, hein?

A Crefisa, contudo, é uma empresa, uma pessoa jurídica. Seus donos, que não se confundem com a entidade que gerem, decidiram se tornar conselheiros do Palmeiras. Movidos por uma motivação absolutamente fantástica, iniciaram então sua escalada que simplesmente não encontrou barreiras. Primeiro, se aliaram como carne e unha ao ex-Presidente Mustafá Contursi, identificado então por eles como o maior dirigente da história do clube. Numa campanha como nunca houve na SEP, com jantares e comitê eleitoral alugado em frente à sede, ambos se elegeram conselheiros do Palmeiras, com votações históricas. Para confirmar esta eleição, e ainda com o decisivo apoio do ex-mandatário, o Conselho Deliberativo votou, contra a orientação do Jurídico do clube e por amplíssima maioria, que uma mera declaração dada por Mustafá Contursi valia muito mais que qualquer prova documental.  Em seguida, estes conselheiros, em mais uma muito intensa campanha, que incluiu novas festas, voos para jogos e outros mimos, centraram sua atenção em um ponto específico do processo de reforma estatutária, a alteração do mandato da Diretoria Executiva. Vejam: entre diversos outros pontos de alteração do Estatuto que estarão em votação no dia 04, escolheram este, ignorando completamente, por exemplo, a importantíssima votação sobre a manutenção do atual número de conselheiros vitalícios junto ao Conselho Deliberativo. E fazem, novamente, a campanha arrasa-quarteirão, dentro e fora do Palmeiras.

O que se pretende afirmar é que, com toda esta história, a Assembleia Geral da SEP tratará de uma disputa sobre concordar ou não com um projeto pessoal, que se montou com base em atropelos fartamente irrigados financeiramente, e que sob o argumento de ajudar o clube, o aprisiona. A discussão, nestes termos, será sobre ética, e o que entendemos certo e errado. Isso não quer dizer que quem vote pelo “sim” (ou mesmo quem promove a campanha) seja antiético, longe disso. Objetivamente, contudo, é impossível ignorar a trajetória até o momento percorrida deste processo de alteração estatutária. Essa análise – se isso é aceitável ou não – é o que vai marcar a votação. Nunca é demais repetir, por fim, que a última vez que o clube alterou seus estatutos de forma a beneficiar diretamente ocupantes do poder ocorreu na gestão Mustafá Contursi, e os resultados são amplamente conhecidos…

Corre a notícia no clube, ainda, que a aprovação da alteração do tempo de mandato é a condição necessária para que o Palmeiras esteja apto a receber recursos da Lei de Incentivo ao Esporte. Isso é, simplesmente, mentira. O que nos tornará habilitados ao recebimento destes recursos é a votação do item “10”, não havendo relação alguma deste tema com o constante no item “6”. O item “10”, assim, merece o apoio do associado, e votaremos “Sim”. Quanto ao item “6”, considerando que o respeito à Instituição inclui necessariamente o respeito às regras do jogo, a situação é diferente. Iremos votar “não” no item 6, e “não” no item 6.A, porque queremos mais tempo para discutir, queremos refletir sobre o que de fato está acontecendo no clube – sem chantagens, sem pressão, queremos entender até onde vão as ambições do grupo que atualmente domina a política na SEP, até para que o Palmeiras seja capaz de se preparar para os próximos anos. Ninguém – absolutamente ninguém – perde com isso. E o Palmeiras tem muito a ganhar.

Item 9 do Questionário: alteração do número de conselheiros vitalícios e eleitos pelos sócios no Conselho Deliberativo

Quanto a este item, o sócio será convidado a responder se concorda com a decisão do CD de não aprovar a alteração. De novo, concordar em discordar.

Este item é, comparativamente, muito mais importante que o primeiro. Ele representa uma real oportunidade de alterar a dinâmica da política do clube, o que se faz necessário e urgente. Mais que permitir que o Presidente governe por dois ou três anos, a chance de oxigenar a política do Palmeiras, trazendo novas ideias para discutir as suas atuais questões, é essencial. Além disso, mais conselheiros eleitos representam mais gente na administração que deve prestar contas aos associados sobre o que fizeram, pois dali a pouco novamente enfrentarão as urnas. É saudável, é democrático.

Como dito, o CD rejeitou a proposta de alteração do Estatuto. Muitos votaram por convicção, outros levados pela sensação de que seu momento de pleitear a vaga de vitalício pode estar chegando, mas isso não importa: agora o associado tem a chance de reverter este jogo. A Confraria Palestrina já tratou esse tema aqui diversas vezes, e agora reitera: é preciso votar “não”, e alcançar a maioria necessária para derrubar a decisão do CD. Temos uma janela, e não podemos desperdiça-la.

Por fim, fica um último registro: na campanha milionária do “Sim”, o folhetinho distribuído traz a informação que o item 9 trata de “Reprovação das mudanças na composição do conselho deliberativo” e, candidamente, convida o socio a votar “Sim”. Essa deslealdade, que desinforma mais que informa e aposta na continuidade de um sistema que já se provou ineficiente, talvez seja a marca da suposta “modernidade” que pregam: uma modernidade que olha o futuro com a nuca.

Vamos em frente, pelo Palmeiras.

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