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Coluna do Zé Antonio – Memento mori!

Na antiga Roma, as grandes vitórias eram comemoradas com desfiles monumentais. Era aquele esquema do pão e circo, tão copiado na história da humanidade. Os generais eram alçados imediatamente a categoria de heróis nacionais, e todas as homenagens eram prestadas aos promotores da pax romana. Devia ser sensacional.

Bem, os generais desfilavam em carros abertos, junto com as principais presas de guerra (reis, riquezas, escravos), e junto a cada general ia um escravo, que ficava dizendo ao seu ouvido “Memento mori!”, que significa, em bom português, “lembre-se que você é mortal”. Dentro da riquíssima simbologia legada por Roma, esta tem um significado bastante claro: não importa quão glorioso ou importante você é, a morte vem pra todos, e é preciso conservar a humildade – aproveite o seu momento, mas lembre-se que tudo passa.

Esta tarefa, de manter-se humilde e perceber que o tempo passa, não é nada fácil. O ser humano tem um desejo atávico de se perpetuar. Não à toa um dos principais mandamentos da Bíblia é o “Crescei e multiplicai-vos”: mais que uma questão de vaidade, é o próprio instinto de preservação que nos impulsiona a deixar sobre a Terra nossa marca. Desejamos, racional ou irracionalmente, legar mais que a “memória igual ao traço que o fumo risca no ar e a espuma traça na onda.” (lembram do Dante, e a sua “Divina Comédia”? É bem sobre isso).

Pois bem. Na próxima reunião do Conselho Deliberativo do Palmeiras, no dia 02 de dezembro, haverá votação para preenchimento de 17 das 20 cadeiras de conselheiros vitalícios atualmente vagas. O processo é adequado ao atual Estatuto Social vigente, e se apresentaram 24 candidatos ao pleito.

É preciso dizer, desde já, que não há dúvida que estes candidatos são verdadeiros palmeirenses, preocupados com os destinos de nosso clube, sendo certo que, pra concorrer ao cargo de vitalício, necessariamente o candidato já deve ter uma boa ficha de serviços prestados ao Palmeiras. Tudo, assim, está formalmente adequado. Por que, então, este texto se chama “Memento Mori!”?

A coisa é simples: uma das principais lutas dentro do atual ambiente político do Palmeiras é extinguir ou, ao menos, reduzir drasticamente o número de conselheiros vitalícios. Já expus as razões para este entendimento aqui – http://migre.me/gJf1O -, e estas basicamente se resumem que não há como imaginar uma representação democrática sem que esta seja feita por candidatos eleitos por quem representa.

O processo de revisão do Estatuto Social está em andamento, e o tema já foi objeto de debate. Infelizmente ainda não temos acesso ao encaminhamento dado pela comissão encarregada dos trabalhos de revisão sobre o assunto, mas as notícias indicam que o grupo foi sensível ao pleito. Há, em síntese, a sensação de que se as cadeiras vagas de conselheiros vitalícios não forem preenchidas agora, é bem provável que nunca mais o sejam.

Estes candidatos, a despeito das últimas votações desfavoráveis ao preenchimento das cadeiras de vitalícios no CD, buscam, assim, uma espécie de derradeira chance para serem eternamente conselheiros do Palmeiras. Certamente têm boas intenções, certamente imaginam que o Conselho Deliberativo ganharia em muito com a sua presença seculum seculorum. A estes senhores, com todo o respeito e acatamento que merecem, cada conselheiro do CD deve dizer, na sessão do dia 02 de dezembro, “Memento mori!”.

É preciso ter humildade pra reconhecer que é indispensável dar aos sócios do Palmeiras o direito de eleger seus representantes. É preciso convidar a cada um destes candidatos a uma simples reflexão: por que as ideias que representam serão necessariamente as melhores para o clube daqui a 10, 20, 30 anos? Não é mais justo que o sócio possa, tendo em vista as condições do clube, ponderar e eleger seus representantes para fazer valer as ideias que defende no tempo oportuno?

Melhor fariam os candidatos que se apresentaram ao pleito que, simplesmente, desistissem de concorrer. É evidente que esta escolha é difícil: os ora candidatos, na próxima eleição para o Conselho Deliberativo, poderão não ser mais eleitos pelos associados para integrar o colegiado, ou poderão não mais ser convidados a ocupar cargos na Diretoria Executiva do Palmeiras. A humildade, no caso, está em reconhecer que a marcha da vida é incessante, e que fazemos parte de uma instituição secular e muito maior que qualquer interesse individual. Tudo democrático, livre e, por que não dizer, humano.

A Confraria Palestrina, então, dá o seu recado: aos candidatos aos cargos de conselheiro vitalício concorrentes no pleito do próximo dia 02 de dezembro, pedimos, com todo o respeito e consideração, que desistam de concorrer. Caso, contudo, permaneçam firmes neste seu ideal – que é perfeitamente compreensível, repetimos -, fica, desde já, um aviso: a Confraria Palestrina alinha-se com as correntes democráticas existentes no Palmeiras que não admitem a existência de representação sem eleição. Reconhecemos que não temos o dom de saber se nossas ideias serão boas para o Palmeiras daqui a décadas e, por tal razão, sempre submeteremos nossos candidatos ao Conselho Deliberativo ao escrutínio dos sócios do clube. Com humildade, reconhecemos que o tempo passa. Memento Mori!

Link permanente para este artigo: http://confrariapalestrina.com.br/coluna-do-ze-antonio-memento-mori/