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Coluna do Zé Antonio – Produtividade

A sempre voraz mídia palestrina tem discutido, nos últimos dias, sobre a postura do Palmeiras e oferecer contratos de produtividade a seus jogadores. A estratégia, válida para as renovações e para os novos contratos, tem dividido opiniões: de um lado, em geral, os defensores da gestão Paulo Nobre dizem ser este um modelo moderno e profissional de administrar o futebol; de outro, os opositores criticam a medida, dizendo que o Palmeiras, com esta postura, perde competitividade no mercado.

A realidade do futebol brasileiro é muito pitoresca: a despeito do péssimo nível do futebol aqui praticado – basta assistir uma partida da Premier League ou do Campeonato Alemão para se constatar esta realidade

-, nossos jogadores da Primeira Divisão ganham salários altíssimos. Não é nenhum exagero: basta constatar o que pagam os países vizinhos para se ter noção de como o mercado brasileiro é inflacionado. Não é difícil para um clube nacional de ponta pagar salários duas, três, dez vezes maiores a jogadores de times de primeira linha do Chile, Equador, Uruguai, Paraguai ou mesmo Argentina, sem contar o que se gasta com agentes, atravessadores e toda a rica fauna que acompanha estes atletas. Por outro lado, dá pra dizer que um executivo de empresa que ganha cinquenta mil reais por mês é muitíssimo bem remunerado, sendo certo que um jogador de um grande clube do Brasil que tem este salário se enxerga como um verdadeiro mendigo (o que, convenhamos, não é).

O Palmeiras, é bom que isso fique muito claro, é ponta de linha. É o campeão do Século XX do futebol brasileiro, o maior vencedor da história esportiva deste País. É a obsessão de 18 milhões de torcedores, capaz de transformar qualquer Zé Ruela em um jogador de futebol de destaque. O clube, por outro lado, e isso não é segredo, está com sérias dificuldades financeiras. Passou o ano de 2013 dependendo do favor de seu Presidente, que emprestou dinheiro em seu nome para repassar à entidade – dinheiro este, diga-se, usado para pagar desde o produto de limpeza dos banheiros até o jogador mais caro. Este é, em síntese, o cenário que se apresenta.

É sabido que, numa guerra, a primeira vítima é a verdade. As discussões travadas entre grupos políticos rivais fazem uma nuvem de fumaça sobre o assunto, e tiram do foco o que me parece ser o essencial: qual a razão de o Palmeiras adotar esta postura, e o que significa isso para o futebol do clube e do País.

Sob este aspecto, basta um pouco de visão crítica para entender que o Palmeiras não tem alternativa a não ser tentar conter a sua folha salarial. É despesa corrente, constante, que onera o clube sem choro nem vela. Este problema tem que ser abordado e solucionado, por mais doloroso que possa ser aos seus torcedores. Não fosse Paulo Nobre o atual Presidente, a postura, se voltada ao bem do clube, teria que ser exatamente a mesma. A saída proposta pela Presidência, por sua vez, parece muito interessante: vincular ganhos financeiros aos jogadores em razão de seu desempenho em campo.

Esta proposta é longe de ser absurda. Os jogadores que hoje desfilam sua classe (há!) pelos gramados brasileiros são absolutamente nivelados em termos de habilidade. Em toda e qualquer partida da primeira divisão a bola belisca canelas, e é visível a falta de fundamento dos atletas. Eles correm, isso é inegável, mas tem uma gigantesca dificuldade com a tal da bola. Se é assim, o que distingue uns dos outros é a organização tática da equipe, associada à inteligência dos treinadores em escalar jogadores certos para as posições do time. Não há craques, e sim boleiros que sabem fazer uma ou no máximo duas tarefas de forma competente, alocados em campo de fora a utilizar de maneira ótima suas capacidades. Não há esquadrões no futebol brasileiro, e sim equipes bem montadas e com jogadores dedicados, e que desta forma se destacam.

Jogadores que hoje tememos perder por conta do dificultoso processo de renegociação salarial – falo aqui, como exemplo, de Leandro e Vilson – não são craques. São medianos e, portanto, absolutamente substituíveis. Aliás, como disse acima, foi o Palmeiras que deu destaque a estes senhores, que estão muito longe de ser exemplos de dedicação e disciplina. A proposta do contrato por produtividade, por sua vez, pode trazer ao clube atletas comprometidos com seu desempenho, minimizando as possibilidades de acontecer aquela nhaca de jogador se arrastando em campo porque, de qualquer jeito, no final do mês o salário cai na conta. Se correr mais, se dedicar mais, tomar cuidado com disciplina em campo e fora dele, vai ganhar mais dinheiro. E, em regra, e isso até o mais fanático torcedor sabe, é o que estes simpáticos atletas querem.

É preciso ponderar, ainda, que o modelo de pagamento de superssalários não é autossustentável no futebol brasileiro, e que as medidas de exigências de fair play financeiro são iminentes. Nosso futebol vai ter que se adequar, e os clubes terão que gastar o que arrecadam, sendo certo que a alavancagem com dívidas não será mais tolerada caso se configure como gestão desastrosa das entidades (o que é a regra). As medidas hoje propostas no Palmeiras, se indispensáveis em razão do contexto interno, passarão a ser exigidas de todos os times do País.

A política de contenção de custos e do pagamento por produtividade, se provavelmente não vai permitir montar um esquadrão, também não vai fazer o time ficar mais fraco que seus concorrentes na primeira divisão. 2014 é o ano do Centenário, um ano importante pro clube. As decisões e posturas que adotamos hoje terão, contudo, repercussão nas próximas décadas. Se por um lado todo palmeirense quer um Palmeiras forte e vencedor e é preciso dar alegrias à nossa torcida (que com razão cobra grandeza do clube), não dá, sob outro ponto de vista, pra fechar os olhos à realidade. É preciso, desta forma, trabalhar com firmeza e coerência, e isso pode e deve ser exigido da Diretoria do clube e dos seus executivos. Pelo bem do Palmeiras.

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