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Considerações de um dia de ressaca – A derrota no Derby e o atual quadro do Palmeiras

Dia de ressaca de derrota em Derby é difícil. Cabeça inchada, raiva, indignação. Não é bom perder, e perder Derby é o fim do mundo!

Bem, na verdade, não é o fim do mundo. A doída derrota de domingo foi muito impactante porque o time do Palmeiras foi, simplesmente, inofensivo. Não conseguiu impor o jogo em momento algum, e sofreu os gols sem que houvesse uma sensação razoável de que conseguiria reverter o resultado. Foi um jogo indigno das nossas tradições. Mais um, aliás. Mas o Palmeiras não acabou – e nem vai acabar – por causa disso.

Não é de hoje que o futebol do Palmeiras vai (desculpem) mal das pernas. É um processo, conhecido por todos, de diminuição da capacidade de competição desta modalidade esportiva que vem acontecendo progressiva e paulatinamente, e que acompanha a não menos reconhecida crise financeira pela qual passa o clube.

No momento da derrota, as redes sociais se enchem de manifestações mais ou menos virulentas contra os jogadores, a Diretoria do clube, e contra os profissionais contratados para reverter este quadro desalentador. Tais críticas normalmente advêm da justa indignação e inconformismo do torcedor, que sabe da grandeza do Palmeiras e se vê atordoado pela série de insucessos e reveses que vem acontecendo. Uma característica destas manifestações é a falta de relação que se faz entre a atual situação do time de futebol e o apontado processo diminuição de capacidade do Palmeiras de ser um ator relevante no mercado da bola – as pessoas querem que venham craques imediatamente, e que, de preferência, todos aqueles supostamente responsáveis por não permitir que isso aconteça (os diretores do clube) sejam defenestrados. De preferência, aliás, de um andar muito alto do edifício mais próximo das catacumbas infernais.

Quanto a este assunto, é sabido, obviamente, que a renúncia da Presidência do clube e a simples (embora grande) vontade de ter jogadores de renome no time não fará a mudança desejada por todos os palmeirenses. A realidade mostra que o momento é de reconstrução, e, ainda que isso não seja de fácil digestão (haja sal de fruta pra digerir o atual momento do Palmeiras) é muito importante que isso seja reconhecido.

De fato, a atual Diretoria pegou um clube com finanças e administração em estado absolutamente de terra-arrasada. Antes que qualquer um venha a dizer que isso é um blá-blá-blá, que todo clube tem dívida, é o caso de pedir um pouco de atenção pra isso. Não é esta uma situação hipotética, do mundo da teoria – é fato. A dívida, crescente em tamanho e complexidade na última década, no primeiro ano da gestão Paulo Nobre ocasionou a situação de que só havia dinheiro para o clube honrar seus compromissos por quatro meses! Aliás, boa parte da receita de 2014 também já havia sido comprometida, e o Palmeiras somente tinha acesso a crédito a juros extorsivos (ainda tem, aliás, o que justificou os empréstimos do Presidente pro clube). Não havia um mínimo controle administrativo – ninguém conseguia saber o quanto o Palmeiras gastava por mês, e poucos saberiam dizer o quanto entrava. O quadro encontrado foi, simplesmente, caótico.

Ao assumir, o atual Presidente prometeu profissionalizar a administração do clube, e reorganizar suas finanças. O discurso de “não ser refém do Centenário” versava exatamente sobre isso: era preciso colocar a casa em ordem, para voltar a ser o Palmeiras de sempre. E, justiça seja feita, a gestão vem tentando seguir estas diretrizes – mais que uma opção conjuntural, diga-se, esta é uma necessidade inadiável. É certo, também, que houve problemas que talvez não fossem esperados: o caos e desorganização encontrados foram muito maiores que as expectativas – o show de horror incluía oficiais de justiça visitando diariamente o clube com intimações para pagamento de contas que não estavam contabilizadas, valores devidos a jogadores e aos seus agentes e atravessadores que apareciam por detrás de pilhas de papéis e computadores que rodavam programas baseados no sistema operacional DOS (pra quem não sabe, velho e ultrapassado). Sinal do estado desesperador da organização do clube foi a aprovação do orçamento de 2013, que deveria regular a despesa e a receita naquele ano, somente no mês de outubro. Em síntese: uma enorme bagunça, muito dinheiro devido, e nenhuma receita.

Houve, ainda, um outro fator que prejudicou decisivamente o processo de retomada de crescimento do Palmeiras: o atraso nas obras da Arena. Este atraso, de uma obscenidade pornográfica, priva o Palmeiras de receitas importantíssimas, além de fazer com que ele continue a arcar com as despesas referentes ao imóvel. Estima-se que somente com eventos e locações o Palmeiras receberá R$ 100 milhões em cinco anos, sendo R$ 20 milhões por temporada, sem contar o dinheiro que será arrecadado com a venda dos ingressos das partidas, que será todo do clube. Uma verdadeira mina de ouro, seja qual for a resolução da disputa arbitral em curso, à qual o clube não tem acesso simplesmente pela incapacidade da empresa parceira em entregar o empreendimento no prazo avençado. Não, não falarei sobre teorias da conspiração que indicam ser o atraso proposital – minha cabeça está realmente inchada com o jogo, e não é o caso de arruinar também o fígado.

É óbvio que, a par das impossibilidades e dificuldade físicas e jurídicas já apontadas, a Gestão Paulo Nobre teve erros e acertos imputáveis exclusivamente à sua atuação. Sob o aspecto positivo, a implantação do SAP para o controle dos fluxos de negócios e informação no clube; a extinção do Palmeiras-B, depósito de jogadores de empresários e agentes que nunca rendeu resultados positivos para a SEP; limitação de gastos com pagamentos a agentes e salários no futebol profissional, com a implantação do contrato de produtividade; o incremento da importância do Avanti! etc. Sob o aspecto negativo, a atual Gestão não conseguiu realizar a prometida reforma estatutária, que teria por objeto a imprescindível reorganização das as estruturas do clube; houve, também, objetivamente, mau desempenho de setores profissionalizados da administração, em especial no tocante à não obtenção do patrocínio Master para a camisa do time de futebol e processos longos, desgastantes e indesejavelmente atribulados de negociação com atletas do futebol.

O fato é que, reconhecidos estes problemas e condições, o Palmeiras ainda é uma potência, que tem um orçamento, pra 2014, de mais de 220 milhões de reais. Isso implica que, mesmo com toda ressaca pela derrota para nossos maiores rivais esportivos, com tantos problemas e com tão pouco espaço pra avançar em curto prazo, os abutres continuam a rondar o clube. Não precisa nem investigar muito pra notar esse fenômeno: junto com aquelas críticas justas e indignadas de torcedores e mesmo opositores da atual Gestão que querem o bem do Palmeiras, há os aproveitadores, que esperam o pior acontecer para recolher o espólio. Apostam na catástrofe, torcem pelo desastre, e não conseguem imaginar cenário mais favorável a seus intentos que uma nova queda pra Segunda Divisão. É justamente contra estes agentes que a Confraria Palestrina se posiciona. Somos a favor do Palmeiras, e trabalhamos para que ele volte a ser o grande campeão que sempre foi. Independentemente de o Presidente ser Paulo Nobre ou qualquer outro agente de ocasião, lutamos para que a escumalha que levou o clube à atual situação não consiga retomar o seu controle. Cremos que o Palmeiras pode e deve ser forte, temido, respeitado, e que pra isso é sim necessário profissionalizar, dar transparência e controle aos negócios do clube. É indispensável que haja responsabilização dos maus administradores, e que o propósito de quem decide os destinos do clube seja exclusivamente o bem do Palmeiras. Em condições menos dramáticas, isso seria o mínimo aceitável – hoje, é um sonho a ser perseguido, e a árdua batalha de todo dia. Não desanimaremos – conte conosco, Palmeiras.

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  • Claudio Longo

    O único acerto de Paulo Nobre sera a renuncia já!

    • Zé Antonio

      A renúncia do Presidente mergulharia o clube num caos ainda maior, e abriria espaço pra acordos oportunistas que prejudicariam ainda mais o Palmeiras. É preciso que o mandato do atual Presidente vá até o final, e que, caso ele se recandidate, seja avaliado nas urnas. Democraticamente. E, claro, obrigado pela leitura e pelos comentários. Abraço!

  • Claudio Longo

    Como é possível a reforma estatutária, com MUMU, no comando do COF?
    Não há dialogo entre as forças politicas do clube , porque todas tem acertos com o poder imposto pelo nefasto!

    • Zé Antonio

      A reforma é possível. Discordo dessa afirmação que todas as forças políticas no clube tem “acertos” com Mustafá. O que acontece é que ele coordena a atuação de um bom número de conselheiros (chuto mais ou menos uns 90), e que, por isso, qualquer deliberação do CD precisará ser negociada com o grupo que ele representa. Acho que essa “mistificação” do papel de Mustafá Contursi, inclusive, favorece quem bate na tecla que não dá pra melhorar o clube democraticamente. Repito: ele é muito importante, mas há outras forças que politicamente podem se organizar pra fazer frente a qualquer corrente – a aprovação das eleições diretas pelos sócios, aliás, mostrou isso.