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Verdades inconvenientes

A UOL trouxe hoje (27/06) reportagem assinada por Danilo Lavieri com o título “Palavra de Mustafá permitiu Leila ser conselheira; veja documentos” (link: http://bit.ly/2rXz4nj). A matéria explica que a palavra do ex-Presidente Mustafá Contursi foi suficiente para que fosse comprovada a regular inscrição da associada Leila Pereira no quadro associativo do clube de modo a permitir que ela disputasse as eleições para o Conselho Deliberativo da entidade. A reportagem esclarece que o pedido de retificação da ficha da associada foi negado pelo ex-Presidente Paulo Nobre, sendo novo requerimento de Mustafá Contursi o bastante para que o Presidente Mauricio Galiotte determinasse nova alteração registral.

Estas são verdades mais ou menos conhecidas. A reportagem, contudo, trouxe à luz alguns elementos interessantes, que passariam despercebidos se não fossem importantes. Primeiro, o registro da ficha do clube:

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A sequencia de informações é clara: em 2015, a associada adquiriu título remido familiar; em fevereiro de 2016, a pedido de Mustafá, foi realizada a alteração; em 14 de dezembro de 2016, o Presidente Paulo Nobre, com base em parecer jurídico, determina a retificação do assento; finalmente, em 23 de dezembro o Presidente Maurício Galiotte endossa o pedido de Mustafá para que a decisão anterior seja desconstituída. Os documentos estão todos na reportagem da UOL.

Pois bem. A primeira verdade inconveniente é que, ao contrário do discurso que reiteradamente é realizado, a decisão do Presidente Maurício Galiotte não foi encaminhar a decisão sobre a associação ao Conselho Deliberativo. Ele aceitou o pedido de Mustafá, e reverteu a decisão do ex-Presidente Paulo Nobre. Se, porventura, o Conselho Deliberativo decidisse não aprovar a candidatura de Leila, teríamos um problema jurídico real: a decisão sobre a associação já havia sido tomada, e não haveria justa causa para seu impedimento. Como o bumbo mustafista bate altíssimo no CD, não houve qualquer risco deste problema ocorrer. A decisão política do colegiado, assim, nada mais representou que a confirmação da decisão administrativa já adotada.

Uma outra verdade inconveniente é que, com raríssimas exceções, todos os conselheiros que votaram contra a autorização da candidatura de Leila Pereira foram afastados da Diretoria do clube. Novamente, o discurso do Presidente Maurício Galiotte era (e ainda é) o de que o CD era soberano para decidir sobre o tema, e que ele aceitaria qualquer decisão ali tomada, não implicando o posicionamento dos conselheiros qualquer consequência nos trabalhos regulares do clube. Pois bem: votar contra a decisão da Presidência de retificar o registro da associada Leila Pereira foi o beijo da morte pra quem era diretor do Palmeiras – não se trata, aqui, de lamentar perda de cargos, mas sim de evidenciar a divergência entre o discurso e a prática.

Aliás, no que tange à distância entre discurso e prática, as repetidas vezes em que a empresa patrocinadora ameaçou retirar o seu apoio em função de questões políticas do Palmeiras (Por exemplo, entre outras ocasiões: http://bit.ly/2thLQkH, http://bit.ly/2thuGU5, http://bit.ly/2tkm7si) mostram mais uma verdade inconveniente: hoje há uma confusão entre quem aufere resultados financeiros em função de uma parceria comercial como clube e representantes de seus órgãos políticos. A conclusão sobre se isso é bom ou ruim, prejudicial ou não ao Palmeiras, depende de quem avalia. O que é inegável, contudo, é que esta confusão acaba influenciando decisivamente na condução dos negócios do clube: Leila é apoiada por Mustafá, que utilizou sua eleição para ampliar ainda mais sua base de conselheiros; Mustafá controla os dois principais colegiados do clube, que podem tornar a administração do Palmeiras simplesmente inviável caso trabalhem em oposição à gestão; logo, as decisões da diretoria executiva do Palmeiras que de alguma forma possam contrariar seu parceiro comercial tem que ser tomadas também analisando-se o risco político de tal decisão. Tal condição, só por si, evidencia o perigo de que decisões estratégicas importantes para o Palmeiras sejam tomadas utilizando-se como um dos parâmetros de decisão o de não desagradar seu parceiro comercial, em razão do risco correlato de perda de apoio nos órgãos de fiscalização e deliberação do clube.

Pois bem. Expostas algumas das verdades inconvenientes do atual momento da política palmeirense, que se somam à reportada pela UOL, a Confraria Palestrina vem a público reafirmar que não é um grupo de oposição ao governo Galiotte, assim como não era um grupo da situação no governo Paulo Nobre. Nós sempre fizemos questão de manter nossa independência, e de cobrar a coerência entre o discurso e a atitude. Fomos bombardeados inúmeras vezes – tanto pela oposição quanto pela situação -, mas jamais deixamos de nos posicionar publicamente sobre os temas de interesse do Palmeiras, tanto junto ao público externo quanto no Conselho Deliberativo do clube. Isso aconteceu, aliás, na própria reunião que decidiu sobre a candidatura de Leila Pereira: um de nossos conselheiros foi o único a se manifestar na tribuna contra a candidatura, exatamente em razão da quebra da regra do Estatuto. Em uma simples constatação, pra nós, a lei do clube é seu Estatuto, e não a palavra de qualquer dirigente.

Essa postura da Confraria Palestrina, por sua vez, tem seus ônus e seus bônus. Os ônus são referentes a uma certa estranheza de quem está acostumado com a política do clube, já que estes não conseguem entender como decidimos e como atuamos, com o consequente isolamento do grupo da grande política palestrina; os bônus dizem respeito não só à coerência e respeito que esta prática proporciona, como também, e principalmente à liberdade que este modo de agir possibilita.

É preciso dizer, ainda, que da consideração entre os ônus e bônus nossa decisão nunca foi difícil: nosso padrão ético tem nos mantido no mesmíssimo rumo desde a fundação do grupo. Continuaremos, como sempre fizemos, a exigir que o profissionalismo e a transparência sejam a marca de qualquer administração da Sociedade Esportiva Palmeiras. Este não é um princípio, e sim um parâmetro: o clube não pode deixar de ser administrado sob estes paradigmas. Mais: entendemos que a política no clube tem que ser pautada pela participação dos associados e dos torcedores, isto é, deve haver canais de comunicação hábeis tanto a informar quanto a possibilitar a cobrança dos dirigentes sobre as decisões adotadas. A construção destes canais permitirá que o Palmeiras evolua administrativamente e aprimore a gestão e a construção de indicativos de eficiência e moralidade administrativa. Não é algo de outro mundo: basta vontade política.

Não podemos correr o risco de perder o conquistado nos últimos anos. Com todas as críticas que merece, o Presidente Paulo Nobre impediu que o clube fechasse as portas, e recolocou o Palmeiras em seu patamar histórico – um salto gigantesco, em um trabalho cheio de dedicação e competência. Agora que o Palmeiras navega em águas calmas, aqueles que levaram o clube à bancarrota novamente se aproximam do poder – é preciso que saibam que não permitiremos que o Palmeiras volte no tempo, e retroceda ao amadorismo e clientelismo e entre em nova espiral de decadência. Vamos lutar, ainda que em minoria, ainda que sofrendo derrotas – não temos medo de perder, pois a luta, em si, é a nossa vitória. Apoiaremos as decisões da Diretoria que privilegiarem os padrões de governança que defendemos, e criticaremos as medidas que destoarem desta linha, de forma democrática. É um belo trabalho, e será feito. Pelo Palmeiras.

 

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