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Vespasiano, Abreu e a taxa de construção do Palmeiras

O Imperador Romano Vespasiano era casca-grossa. Depois do suicídio do maluco Nero, aquele que curtiu enquanto Roma pegava fogo (qualquer semelhança com os dias de hoje…), houve uma série de golpes militares que acabaram quando, no ano de 69, este general assumiu o poder. Ele tomou várias medidas saneadoras, colocou seus aliados nos cargos-chave do Poder e investiu pesado na propaganda do “nunca na história deste império”. Com isso, conseguiu estabilidade política, e, ao morrer passou o trono a seu filho Tito.

Vespasiano não teve um governo especialmente brilhante, mas é o autor de uma frase que entrou pra História. Foi assim: pra ajudar nas finanças do Império, foi instituída uma taxa pela utilização dos banheiros públicos na cidade. Era muita gente, entrava muita grana, mas Tito achava ruim – “então a grande Roma dependeria de dinheiro de latrinas pra sobreviver?”. Um belo dia (podia não ser um dia belo, ninguém diz se estava chovendo, mas vá lá) Tito reclama com Vespasiano, e prontamente o Imperador manda o guri fazer a coleta do dia. Ao final da tarefa, com alguns sacos de dinheiro depositados aos seus pés, Vespasiano então enche a mão com as moedas coletadas, leva ao seu nariz e aspira profundamente. Em seguida, olha pro seu filho e diz “Tá vendo? Dinheiro não tem cheiro!” (“Pecunia non olet!”).

O princípio do “non olet” é um dos mais conhecidos do Direito Tributário. Diz que não importa de onde vem o dinheiro, se ele aparecer deve ser tributado – resolver o crime é outra coisa, o que importa é ter os recursos para fazer o que é preciso. Vespasiano entrou pra história do mundo, assim como outro personagem, o Abreu, entrou na história do Brasil.

Não consegui descobrir a origem do ditado (a wikipedia resolve o Vespasiano), mas todo mundo sabe que quando a conta tá alta… “Põe na conta do Abreu – se ele não pagar, nem eu!”. É engraçado, porque normalmente quem fala isso está só brincando – há o dever de pagar o que se deve, e por maior que seja a crise moral que o Brasil atravessa, ninguém ainda acha que está certo sair de fininho e deixar os amigos na mão. Ou será que alguém acha?

Os sócios do Palmeiras foram surpreendidos com a notícia de que, mesmo após quatro anos de tapumes, limitações a deslocamentos, sujeira e confusão, ainda terão que fazer mais um sacrifício: arcarão com uma taxa de obras para a instalação das unidades administrativas e esportivas do clube nos novos prédios, entregues pela parceira WTorre. O assunto ganhou os jornais, as alamedas e redes sociais, e já virou bandeira de grupos políticos de oposição. Pra contribuir com os debates, alguns pontos precisam ser destacados.

Não é nenhum segredo que reformas custam dinheiro. Pra quem tem dúvida disso, tentem trocar a pia da cozinha… Então, qual é o problema da taxa proposta pela Diretoria do Palmeiras? Bem, a origem é singela: quando houve a aprovação do Projeto da Arena pelos associados, foi dito que os prédios novos seriam entregues em condições perfeitas de uso. Faltou, vejam só, dizer o que significava isso…

O Memorial Descritivo de um prédio pode conter, dentre outras informações, a conceituação do projeto, as normas adotadas para a realização dos cálculos, as premissas básicas adotadas durante o projeto e seus objetivos, o detalhamento de materiais empregados na obra ou no produto e demais detalhes que pode ser importantes para o entendimento completo do projeto. É o documento que conta minuciosamente a história do que haverá no prédio.

Estamos em litígio com a WTorre, e parte deste litígio envolve o que foi entregue nos prédios ao clube. Não é o caso de avançar neste ponto (mesmo porque isso também é objeto do processo), mas é possível destacar que o memorial descritivo do prédio administrativo conta com três páginas, sendo uma página e meia dedicada a exceções (o que não seria instalado). Desta forma, independentemente do resultado do processo (WTorre luta pra dizer que entregou o que prometeu, nós brigamos pra dizer que ela não entregou o que consta do memorial), o tal do Abreu já aprece na história. Há uma conta a ser paga, e ela já estava pregada na geladeira quando a gestão Paulo Nobre iniciou – as antigas diretorias usaram a frase, e acabaram saindo de fininho. Não que não houvesse gastos a realizar se os prédios de fato fossem entregues perfeitamente adequados ao uso do clube, atendendo a pormenorizado memorial descritivo: o fato é que se cobrança de taxa houvesse, seria de valores bem menores.

Bem, então a conta existe. E quem vai pagar? A resposta, infelizmente, não pode ser outra: é o associado. Por mais doído que seja, Vespasiano tinha razão: os recursos tem que aparecer porque há necessidades a atender, e ao invés do dinheiro sair da latrina da história do Palmeiras, vai ter que vir daqueles que com o suor do seu trabalho o sustentam. Ainda que no futuro parte destes recursos seja recuperado com a decisão da Arbitragem eventual responsabilização dos gestores do Palmeiras e até mesmo receitas da Arena não associadas ao futebol (aluguéis para shows, por exemplo), existe uma necessidade premente (a reforma dos prédios para a instalação do clube) e não há dinheiro em caixa.

Resta, assim, a discussão sobre a conveniência de cobrar-se a taxa neste momento. Quanto a este aspecto, a decisão verdadeira é se desejamos ou não ter acesso a todas as facilidades e vantagens de ter uma sede social perfeitamente organizada e apta a uso agora, ou se preferiríamos deixar isso para outro tempo. Quanto a isso, os anos de construção da Arena já causaram tantos transtornos ao associado que seria quase impossível à Diretoria do clube propor tal adiamento. E este “quase impossível” talvez seja o ponto principal da questão.

Em síntese, ao decidir realizar as reformas sem consultar os associados, a Diretoria do Palmeiras cometeu um acerto estatutário-institucional e um erro político. Estatutariamente agiu de forma correta, porque determinou a contribuição para custear intervenção necessária a melhoramentos no clube – não há, sob este aspecto, e por mais que os arautos do fim-do-mundo digam em sentido contrário, qualquer ponto a corrigir. Do ponto de vista da instituição, a Diretoria trabalhar para fornecer as condições mais adequadas de utilização do clube ao sócio é seu dever constante – reitera-se: as obras são necessárias, não há como o improviso continuar a ser a tônica das instalações de um clube tão importante quanto o Palmeiras. Sob este aspecto, basta relembrar dois fatos: a aquisição de equipamentos de ginástica e de computadores sem que os prédios estivessem sequer finalizados. No primeiro caso, a Diretoria ainda conseguiu realizar uma instalação provisória da academia de ginástica. No segundo caso, não há como: para colocar os computadores pra funcionar, deve haver rede lógica e elétrica adequada – enquanto isso não ocorrer, os computadores vão ficando… ultrapassados. É dinheiro jogado no lixo, pura e simplesmente.

O erro político é menos evidente: numa só tacada, a Gestão Paulo Nobre acabou assumindo o custo político de cobrar a taxa (e de pagar uma conta política que fundamentalmente não é dela), sem informar adequadamente aos associados as razões a tanto, e abriu mão de debater com profundidade o modo de decidir as questões importantes para o clube. Quanto ao primeiro ponto, ainda que corajosa a decisão de instituir a cobrança privilegiando as necessidades do clube em detrimento de sua popularidade, colocou-se a Diretoria do Palmeiras numa posição vulnerável – ainda que a cobrança da taxa seja “justa”, ela evidentemente não é simpática aos sócios. A consulta aos associados, por sua vez, seria não só simpática e importante para esclarecer as reais condições que levaram à instituição da taxa, mas também seria relevante para empoderar os sócios, de modo a fazer com que estes se sentissem importantes dentro da estrutura do clube. Uma associação, nunca é demais lembrar, é uma união de pessoas, que se juntam para algo – não é uma união de bens compartilhados.

A Confraria Palestrina, assim, lamenta a necessidade da instituição da taxa, pois é um remédio amargo, especialmente pelas condições em que foi ministrado ao paciente. Não deixamos, contudo, de entender as razões que levaram à sua implantação, e repudiamos o seu uso político por aqueles que, ao final, foram os principais responsáveis pela conta que agora pagamos. De fato, os sócios que vem sendo sistematicamente abordados para aderir ao abaixo-assinado contra a taxa de obras merecem esclarecimento, por parte dos promotores da iniciativa, sobre a assinatura dos acordos com a WTorre e sobre o acompanhamento das obras nas gestões passadas. O recebimento dos prédios sem sua capacidade hidráulica e elétrica mínima não é mero acaso – é o resultado de uma série de decisões que acabarem por permitir que assim fossem entregues ao clube. O clube atravessa um momento de responsabilidade financeira e orçamentária, e isso já rende frutos – o trabalho deve continuar, com a seriedade e dedicação até agora demonstrados. O sócio do Palmeiras já demonstrou que não deseja a aventura e o salto no escuro, e sim a construção de um clube saudável tanto financeira como socialmente. Basta de irresponsabilidades. Vamos em frente.

Link permanente para este artigo: http://confrariapalestrina.com.br/vespasiano-abreu-e-a-taxa-de-construcao-do-palmeiras/

  • HERON DE ABREU

    Seria extremamente útil se esses senhores que perambulam pelas alamedas do clube com abaixo assinado contra essa taxa adicional, explicassem onde estavam quando o prédio sede era construído de ninguém passou por lá pra ver o que estava sendo feito.
    Onde estavam quando esse mesmo prédio foi entregue e ninguém estava lá para ver o que estava sendo entregue.
    Pergunto: ao tentar convencer sócio a assinar este documento, eles explicam porque as gestões passadas deixaram este prédio ser construído e entregue de forma tão precária? Quase que só um esqueleto! eles explicam a origem deste problema?
    Parecem mais zumbis políticos que no desespero de ver as coisas mudando para melhor no Palmeiras começam a vislumbrar o seu fim político no clube e nesse desespero, ficam procurando argumentos absurdos para tentarem uma sobrevida política. Senhores que estão lá há décadas, que pararam no tempo.
    A arrecadação do Clube Social, está calculada para fazer frente às despesas correntes do mês. Não existe milagre financeiro.
    O estrago tem que ser reparado e está cabendo a esta gestão consertá-lo.
    Chega de brincar com a inteligência do associado.

    • Jose Antonio Apparecido

      Questões pertinentes.

  • infwilhelm

    Uma vergonha o que a patotinha da UVB vem fazendo, tentando colocar na cabeça de todo mundo que o Nobre stá “empurrando uma taxa goela abaixo dos associados”. Por que eles não dizem o mesmo do Belluzzo, que enfiou goela abaixo do clube um contrato com a “parceira” deveras mal costurado e que agora estamos pagando o preço?

    • Jose Antonio Apparecido

      A gestão Belluzzo ainda será passada a limpo. É uma questão muito importante pro Palmeiras.

      • Jose Wilson Serbino Junior

        Pelo que sei isto ocorreu… foi feita uma sindicancia. Que chegou muito perto de gente que na época mandava no Departamento de Futebol, e hoje está ao lado da atual gestão…então, desfez-se a sindicancia! Calma, gente! Um lado aponta o dedo pro outro. e ambos têm acertos e erros. Palmeiras.

    • Jose Wilson Serbino Junior

      Não gosto de fomentar discussões entre palmeirenses… mas temos que cuidar das afirmações que fazemos. O atual presidente do CD é o advogado cujo escritório cuidou da parceria. PN era vice de Della Monica na época. E desde então sabias-se da necessidade de equipar o clube. Ambos os lados estão politizando este assunto. A situação da adorando posar de vítima, de quem quer separar o futebol ( que tal fazer a reforma estatutaria prometida, o voto do ST… cade?). A oposição virou Pescarmona e a UVB… e perde o Palmeiras com isso.

  • Heitor Saporito

    Aproveitando o espaço. Noto que as luzes dos banheiros na quadra fica o tempo todo ligada, gastando energia desnecessária. Deveríamos instalar sensores de presença em todos os setores para economia de energia.
    Isso é só um exemplo de que muitos detalhes no clube devem ser notados e o dinheiro necessário para as reformas podem ser recuperados com economias simples, do tipo que estamos acostumados a fazer em nossas casa.
    O clube, feliz ou infelizmente, é um grande condomínio e suas despesas devem ser rateadas entre o sócios.
    Reduzir a inadimplência e aumentar o número de sócios, aumentando assim a margem de rateio, deveriam ser medidas tomadas para que tenhamos um clube com dependências adequadas a um custo baixo. Sobretudo no momento em que vive o país.
    Não devemos, entretanto, confundir o momento do time de futebol com o clube social. São coisas distintas, tanto nas horas boas quanto nas ruins.
    O clube é do associado e deve ser bancado por ele. O time é de toda a torcida e deve ser bancado por ela.
    O clube deve ser ressarcido pelo time sempre que for prejudicado ou algum prejuízo for auferido, e vice versa.
    É notório que a vida do clube e a utilização do mesmo pelo associado é afetada diretamente pelo time. Isso também deve ser levado em conta.

    • Jose Antonio Apparecido

      Uma das propostas que pretendemos levar à apreciação do Conselho Deliberativo e (se conseguirmos passar por este filtro) aos sócios é a criação da figura estatutária do Ombudsman. Este agente pode ser importante pra gerar eficiência na administração do Palmeiras.